Não, não se trata de um livro de contos cômicos nonsence – embora o título sugira e as histórias sejam mesmo engraçados. Escrito pelo neurologista Oliver Sacks, O homem que confundiu sua mulher com um chapéu.
Os casos mais estranhos de seus pacientes, onde o ridículo e o trágico se confundem e se misturam são contados por Sacks de maneira leve e de fácil entendimento para os leigos.
Você sabia que fantasmas existem? É, pros neurologistas é uma parte do corpo perdida, amputada. Mas o interessante é que “as vezes essas partes doem – as vezes é uma unha encravada que não fora “tratada” antes da amputação, persistindo por anos após a retirada do membro; mas descreve uma dor muito diferente – uma excruciante dor na raiz do nervo, ou “ciática”... Como uma mulher que sofria uma insistente dor na perna fantasma.” Saca? Se tá doendo uma parte não adianta arranca fora, mais ou menos como acontece com os sentimentos.
Existe pessoas que não sentem cheiros – não, momentaneamente, como a gripe – é a tal anosmia.
E o conto “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, isso realmente acontece, porque sofria de agnosia visual – não tinha problema de visão, mas de assimilação das coisas vistas, ele não tinha capacidade de enxergar panoramicamente, vendo as coisas apenas por partes, dai a confundir a cabeça da mulher com o chapéu.
O livro ainda fala dos distúrbios neurológicos que afetam o eu e os deficientes mentais – principalmente casos em que eles apresentam dons especiais.
Indicado pra quem gosta de casos médicos e não tem grandes tendências hipocondríacas.
Do livro:
Se Deus, ou a ordem eterna, revelou-se a Dostoiévski em ataques, por que outros distúrbios orgânicos não servem de “portais” para o além ou desconhecido?
É preciso começar a perder a memoria, mesmo que a das pequenas coisas, para percebermos que é a memória que faz nossa vida. Vida sem memória não é vida. Luis Buñuel.
O eu cada vez mais se alinha e se identifica com sua doença, de modo que, por fim, ele parece perder toda a sua existência independente, passando a ser nada além de um produto da doença.
Para sermos nós mesmos precisamos ter a nós mesmos, possuir, se necessário repossuir, nossa história de vida. Precisamos “rememorar” a nós mesmos, rememorar o drama íntimo, a narrativa de nós mesmos. Um homem necessita dessa narrativa, uma narrativa íntima continua, para manter sua identidade, seu eu.
O que salva o sr. Thompson em certo sentido e em outro sentido o arruína, é a superficialidade forçada ou defensiva de sua vida: o modo como ela é, efetivamente, reduzida a uma superfície, brilhante, cintilante, iridescente, sempre em mudança, mas apesar de tudo isso uma superfície, uma massa de ilusões, um delírio sem profundidade.
P.S: acho que tenho síndrome de Tourette – “não conseguindo alcançar uma identidade real diante do caos dos impulsos”. Preciso falar com meu psicanalista à respeito, apesar dos meus parentes acharem que eu sofro é de pouca vergonha.
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