Ontem eu estava pensando sobre o futuro e como eu gostaria de saber o que o meu reserva. Claro que eu sei os maus agouros que dizem haver num conhecimento desses – que também falam pertencer à Deus. Enfim, não se precisa ir longe na literatura pra citar exemplos clássicos: Édipo e Macabéa. Não que as histórias não sejam, mais ou menos, o contrário uma da outra: enquanto Édipo tem sua tragédia na tentativa de evitar a tragédia prevista pelo Oráculo: seu pai manda mata-lo para evitar que ele o mate e case-se com sua mãe e é, justamente por isso, que tudo acontece. Já em A hora da Estrela, Macabéa, a pobre e feia nordestina imigrante tem sua sorte, supostamente, lida por uma cartomante que prevê um marido lindo e rico que mudará sua vida: só que o tal destino de Macabéa nunca acontece porque ela tem sua tragédia na procura de seu destino e distraída, sai passando batom enquanto atravessa a rua e morre.
Viu só? Tanto originando a fuga como nos precipitando ao seu encontro o conhecimento do futuro só pode trazer coisa ruim. Exceto talvez em filmes de terror como Premonição, mas ainda assim, é um conhecimento quase estéril: muito do que se sabe não se pode evitar.
Ainda assim, quem nunca quis ter certeza de algo? Qualquer coisa nesse muito de tantas incertezas, um “sinal” que fosse de que se está no caminho certo. Uma pessoa que cruze o seu caminho e acabe ficando – seja a parte de sua estrada em nosso caminho, um atalho, um desvio ou um prato fundo pra toda fome que há no mundo, como diz o Zeca Baleiro. Mas a gente não pensa nas pessoas que encontra: pensa nas que poderia ter encontrado, nas aventuras extraordinárias, nos amores inesquecíveis que poderia ter vivido se tivesse escolhido aquele caminho e não esse, se tivesse marcado a letra A e não a letra D naquele vestibular, se tivesse isso, se tivesse aquilo. Mas como no ditado francês: com alguns SE, se coloca Paris numa garrafa. Eu sempre precisei só de um SE, mas o raciocínio permanece: não podemos saber do futuro porque ele precisa ser um salto no escuro. Do contrário a vida se torna uma sentença e você um marionete da própria consciência por acreditar num destino já decidido: Diabos, o homem tem direito de lutar contra o destino que tem, como diria a Ana Terra, que guerreou contra a fatalidade que lhe cercava e conseguiu dar a seu filho uma vida melhor.
Não que eu não quisesse, de vez em quando, que se pudesse ler na borra do café, nas cartas, nas mãos, no jeito que as estrelas se alinhavam no dia em que eu nasci, o que vai acontecer: saber se a vida vai nos encontrar sob os lençóis brancos da intimidade daqui dez anos, escolhendo o nome dos nossos filhos, ou se isso vai acontecer com o cara ali da esquina, ou o que eu só vou conhecer o cara daqui cinco anos em uma viagem inesperada ou se nunca vai acontecer. Sei lá. Acho que precisamos fazer pelo futuro e rezar uma prece silenciosa seja pra Deus, pra Zeus ou pro Universo, aquela coisa que parece tão intrínseca a uns e tão ausente a outros e que alguns procuram, uns em folhas, outros em patas de coelhos: essa coisa tão pequena e, no entanto, tão decisivamente absoluta: SORTE.
É o que eu desejo pra todo mundo: SORTE. Porque o futuro, ainda uma vez, como no ditado popular: a Deus pertence.
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