“Os homens simplificam o mundo pela linguagem e pelo pensamento, e assim eles tem certezas; e ter certezas é a mais poderosa volúpia neste mundo, muito mais poderosa que o dinheiro, o sexo e o poder reunidos.”
Ok, sem sorrisos irônicos e comentários de ‘tu já nasceu assim’. Até porque é como me tornei estúpido e não estúpida, enfim, trata-se de um livro de Martin Page – que também não é nada estúpido, diga-se.
Antoine, o protagonista, é um carinha de 25 anos, inteligente demais – acredito que culto demais seria mais apropriado – e que, por isso, se sente infeliz, sozinho e depressivo, porque pensa e questiona e reflete demais e isso não deixa ele ser feliz. Como resolver esse problema? Ah sim, se tornando estúpido, claro, simples assim. Ou nem tão simples, pra Antoine foi uma verdadeira odisseia desnorteada.
Primeiro ele tenta se tornar alcoólatra, mas ele não começa muito bem:
“Tenho esses livros porque... Eu não quero tornar-me um alcoólatra qualquer. (...) Descobri que o álcool está ligado à história da humanidade e que tem mais adeptos que o cristianismo, o budismo e o islamismo juntos. Estou lendo um apaixonante ensaio de Raymond Dumay a esse respeito... “
E acaba em coma alcoólico depois de um copo de cerveja.
Depois foi a vez de um curso para suicidas. Depois ele tenta uma Semi lobotomia – que o médico se recusa a fazer e consiste em suprimir parte do cérebro. Mas, porém, contudo, no entanto, Dr. Ed tem outra coisa pra ele: “O medicamento que lhe asseguraria proteção contra o seu próprio espírito, o Felizac.” Ou um Prozac pra vida prosaica como eu gosto de falar.
Agora uma pequena volta pra contar um detalhe: apesar de ser depressivo e complicado, Antoine tem amigos de verdade que são Aslee, o cara alto demais que só falava por versos(!), seu melhor amigo e Charlotte, Ganja e Rodolphe. Antes de se tornar estúpido ele lê uma carta de despedida super emocionante e um pouquinho preconceituosa com os cristãos:
“Está escrito no Eclesiastes que ‘quem tem a sua ciência aumentada, este também tem aumentada a sua dor’, mas, não tendo tido jamais a felicidade de frequentar o catecismo com as outras crianças, não fui prevenido dos perigos do estudo. Os cristãos tem a sorte, quando jovens, de ser postos em guarda contra o perigo da inteligência; por toda a vida saberão distanciar-se dela. Bem-aventurados os pobres de espírito.
Ser curioso, querer compreender a natureza e os homens, descobrir as artes deveria ser a tendência de todo e qualquer espírito. Mas, se assim fosse, com a atual organização do trabalho, o mundo deixaria de girar, simplesmente porque aquilo demanda tempo e desenvolve o espírito crítico. Ninguém trabalharia.(...) A minha suposta inteligência, demasiado independente, não serve para nada.”
E assim Antony torna-se estúpido, aos poucos, claro. Ele reencontra um amigo bem sucedido e começa a trabalhar na bolsa de valores e tem uns golpes de sorte e enriquece e compra uns Hugo Boss, Adidas, Levi’s, Nike, um apartamento e um carro, mesmo sem saber dirigir e mais um monte de coisas que fazem com que ele se sinta menos sozinho. Também começa a comer no McDonald’s e a beber Coca-Cola. Entra pra academia. Depois ele vai à uma agência de encontros porque, apesar e à despeito de tudo, ainda acredita no amor, embora a tia da agencia, não: “Não há inocentes no amor, há somente vítimas.”
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