Acho que eu preferia correr serio risco a enfrentar minha vergonha. A vergonha de não ter me tornado alguém, a vergonha de não ter deixado meus pais orgulhosos depois de todos os sacrifícios que eles fizeram por mim. A vergonha de ter virado uma niilista medíocre.
Mais do que o relato de uma iraniana exilada da casa dos pais aos 14 anos e vai pra Áustria, Persépolis de Marjana Satrapi é uma tradução da adolescência, das dificuldades, dos medos, das crises, da vontade de fazer algo importante que só é proporcional ao medo de falhar miseravelmente. E tudo isso em quadrinhos. Fácil de ler, com um pouco do contexto histórico do oriente, o leitor acompanha a Marji desde os 10 anos no Irã quando o País ainda está sob o domínio do xá e os ingleses e a partir daí quando começam as guerras e se instaura a Ditadura Islâmica e ela se ve obrigada a usar véu e a ser privada da liberdade como todos.
Mas a história não é só triste, Marji sabe rir de suas tristezas, de suas experiências, o namorado gay, as experiências com maconha e entorpecentes, a volta pro Irã onde era considerada puta por ter transado com mais de um rapaz, o outro namorado que ela flagrou na cama com outra menina no dia do seu aniversário de oito anos e que quase acabou com a vida dela – Eu vivi uma revolução que me fez perder uma parte da família. Sobrevivi a uma guerra que me afastou do meu país e dos meus pais... e foi uma banal história de amor que quase me levou embora.
Porque como a autora também diz: só podemos ter dó de nós mesmos enquanto é possível suportar a infelicidade... quando ultrapassamos esse limite o único jeito de suportar o insuportável é rir dele.
Comovente, instrutivo, esclarecedor, um baita livro, recomendo muito, certamente um dos melhores quadrinhos que eu já li.
Frases, frases, frases:
A verdade é que enquanto existir petróleo no oriente médio, não vamos saber o que é paz...
Esse primeiro cigarro me tirou definitivamente da infância. Agora eu tinha crescido.
P.S: Tem o filme e tal, dia que eu assistir, talvez eu faça aquele comentário cliche sobre como o livro é melhor que o filme, apesar de que eu acho que as duas coisas tem objetivos artísticos diversos e compará-los é o mesmo que comparar laranjas e maças.
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