Milles é um professor de literatura separado, amante de vinhos e grande amigo de um idiota. Não necessariamente nessa ordem ou com esses adjuntos de intensidade.
No filme, Miles leva Jack, o amigo que vai casar pra uma semana de “despedida de solteiro” na qual eles viajam, degustam vinhos, conhecem outras mulheres. Na real, acredito que o vinho seja bem importante na história do filme, mas como eu preservo a minha alienação nesse sentido (meu conhecimento sobre vinho se restringe a saber que este causa a pior ressaca e nem sei por experiência própria, por experiência própria eu diria tequila, mas enfim) vou cortar um pouco do vinho da minha modesta opinião.
Sideways fala, sobretudo, de começar de novo. Não, não vai ser um daqueles filmes com final super feliz e cheio de lições de moral, mas Miles é um cara meio perdedor, bem, ele é escritor, todo mundo com uma veia literária nasce com o sofrimento intrínseco ao ser – e eu não falo dos Paulos Coelhos do mundo, eu falo dos escritores de verdade, sem ofensa. Sem contar que Miles também tá separado e é quase quarentão (acredito), ou seja, palavras dele: metade da minha vida já se foi e eu não fiz nada. É o que ele diz quando pensa em desistir da literatura. Mas também se parece muito com o que o leva a desistir do amor depois que o casamento dele termina. E quando ele encontra Maya, que trabalha no restaurante que ele frequenta quando vai pra San Diego – ele mora em Los Angeles – ela gosta um pouco dele, mas eles só acabam ficando quando Jack dá em cima da amiga de Maya, Stephanie. Só que Jack se casa no sábado. Maya fica muito de cara com Miles por não ter dito a verdade pra ela. Típico blá de filme. mas não é aí que eu quero chegar, esse é só mais um dos Ploc Spots do filme, o que eu queria falar sobre Sideways e que foi o que fez com que o filme se tornasse importante pra mim é que ele deixa implícita a mensagem de que não importa o tempo que demore pra você chegar aonde tem chegar ou quantas sideways – ou ruas laterais, numa tradução prosaica e improvisada – você precise, é o seu tempo, saca? Algo meio Michael Ende: Voce fez um longo desvio, mas era o SEU caminho. Sim, tem muita gente que encontra alguém aos 16 anos e é muito feliz. Mas normalmente são as mesmas pessoas que aos 22 entram em crise por só terem amado uma vez na vida. Tem gente que encontra um grande amor e vive ele por algum tempo e depois ele acaba – e depois agem como se a coisa deixasse de ser amor por ter acabado, mas é possível amar mais de uma vez, é possível amar de mais de uma maneira, as vezes mesmo a mesma pessoa. Claro, também tem gente que já se apaixonou tantas vezes que nem sabe mais se gosta da pessoa com que está ou se gosta é de estar com alguém. E tem gente, como Miles e como eu, que já gostou de alguém, mas prefere não arriscar de novo, até que a vida tome o risco. Alguém disse que o amor era uma flor na beira do abismo. Quando eu li achei algo meio retardado, hoje vejo que faz todo sentido. Ainda acrescento: é uma flor na beira do abismo, a qual você tenta encontrar com os olhos vendados. Porque é assim. É assim a droga da literatura também, mas pro bem do mundo, eu ando correndo léguas dela. Agradeçam a faculdade que me castrou.
Cutting the crap, Sideways, recomendo muito.


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