quarta-feira, 16 de maio de 2012

Uma história

Quando ele chegou ela estava num dos raros momentos de sincronia entre seus sentimentos e o mundo, então eles - antes distintos e distantes - passaram a existir não mais paralela, mas simultaneamente. E foi lindo.
E ele a beijou quando ela brincava com o gato branco da desconhecida e riu, riu os problemas que desapareciam na incerteza do céu da boca daquela menina de cabelo azul. Depois? Depois ele esqueceu as meias na casa dela pra ter desculpas pra voltar, depois ela perguntou se ele tinha alguma coisa pra fazer depois e as idas se tornaram menores que as voltas... e assim  o dia se tornou noite e a noite se tornou dia de novo, a lua minguou, cresceu, ficou cheia, depois nova, e depois de novo...
Então ela começou a sentir aquela ansiedade da véspera em dias que não eram véspera de nada. E ele continuou fiel ao sentimento que teve no primeiro momento. E ela cada vez mais precisava de espaço, o que antes preenchia agora sufocava. Assim seus olhos olharam pro lado de novo e lá estavam eles, todos os fantasmas do passado e do futuro - tudo o que não era presente se fez presente e ela duvidou.
Foi quando a língua dela tocou o céu de outras bocas e suas mãos abraçaram limites com outros nomes. E ela sentiu culpa. Mas nada disse.
E as luas continuaram aparecendo e desaparecendo. Os dias longos, curtos, coloridos, cinzas, revezando... as vezes ficava tanto tempo sem chover que se esquecia o gosto da chuva.
Ele também esquecia as vezes porque ela.  Ele gostava  dela fosse apesar dos seus olhos de cores indefinidas ou por causa deles?  Ela também tinha a mania de gostar de tudo nele.
Quando ele foi embora ela estava num momento como qualquer outro de total não sincronia. Ele disse que voltaria, ela mergulhou no caos de tudo o que nunca deixaria de ser: o erro mais bonito que ele cometeu, o olhar que sempre faria falta, a fatia do bolo que sobraria na partilha de um aniversário que eles não iam comemorar simultanea - mas sim paralelamente. 
Mas quando ele voltar, se voltar, as musicas que irão ouvir, a mania de não conseguir estar perto sem estar junto, os quinhentos minutos de filmes que verão no inverno, a saudade do inverno que sentirão no verão... a certeza de que depois de tantas incertezas aquela volta significaria nunca mais precisar de nenhuma certeza além daquela...

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