Eu decidi que eu tinha que me despedir de você propriamente depois de metade de um vinho que eu tinha guardado pra nós dois. Eu sei que você nunca lerá essas palavras e que, tampouco, elas poderão terminar com um: pra sempre sua, ou terão como resposta um: eternamente seu. Pelo simples fato de que nunca fomos nós dois, algo que pudesse ficar, permanecer, ser de verdade, mas deixa eu voltar no tempo, antes de acabar os verbos de ligação todos nesse primeiro parágrafo. Sabemos que precisamos várias outras palavras antes de extingui-los todos.
Há três meses você não era nada pra mim e eu vivia uma existência feliz alienada da sua. Não, eu não vou dizer que você foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida, eu prometi que não seria constrangedoramente sincera de novo. Você não merece. Também não gostei de você no começo, eu me distraia do teu lado, olhando pro meu reflexo no fundo dos teus olhos, pensando em outras coisas: no livro que eu interrompi porque você batia na minha porta, no filme que eu deixei de ver porque você não gostaria dele, no grande nada em que eu estava absorta antes de você chegar, antes dos meus dias trabalharem ao redor da tua presença – ou ausência.
Então um dia desses, depois de um beijo qualquer eu senti minhas dúvidas morrendo no céu da tua boca e eu quis viver mais e vivi, como diria o poema do Gonçalves Dias, mas também como no poema, a vida me privou de gastar a vida contigo – no entanto, entrego o desfecho da história antes do final. Desculpe. Bem, nascemos pra morrer, como na musica. Estávamos apenas tentando nos divertir no percurso. Use suas ultimas palavras, porque essa é a ultima vez. Eu e você, nascemos pra morrer. Born to die.
Não sei se você se perdeu de mim por causa do passado, talvez tenha sido um espirro que matou as minhas memórias – dizem que células mentais morrem quando a gente espirra, sinto medo pelo Shakespeare por causa disso, não me importo mais contigo ou com o passado e pra ser sincera, torço pra que aconteça com você, bem logo. Mas me perco em pensamentos aleatórios. Sei que você não me esqueceu. Sei que eu não posso te dedicar um: eterna e ternamente, sua. Não me foi dado o dom de pertencer pra sempre. Mas eu fui sua. Eram tuas as minhas horas, reduzidas a cinzas no cinzeiro, queimadas, reduzidas à nada: quantos dias? Horas? Semanas? Eu quis tanto você. Eu quis tanto o arrepio na tua pele, o sorriso no teu rosto, os pequenos fragmentos de vida que a gente compartilhava e que se estendiam tão absolutamente no azul do que eu ainda era, na esperança que eu ainda tinha, no amor que eu quase senti.
Eu disse adeus antes. Todo mundo fala em adeus. Ninguém te diz que algo bom em você morre cada vez que você usa a palavra ou simplesmente deixa algo morrer. Mas é o que acontece. E quando você junta os pedaços e acredita de novo, nunca é a mesma crença. Cada vez que você ama de novo, é um amor menor. Pode durar mais, pode ser mais intenso, mas vai ser sempre um amor menos primeiro. É diferente o amor de quem já amou. É o amor de quem pede mais cinco minutos, mais cinco minutos no mesmo sonho. Só que você não pode voltar pro mesmo sonho. Você não pode furtar cinco minutos do resto da sua vida pra voltar pro mesmo sonho. Você só pode rir e recomeçar. Isso depois do tango argentino, como no poema que você não vive, como nos cinco minutos de sonho que a vida não te deu.
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