Eu procrastinei demais pra escrever algo à respeito do livro – porque, na real, eu li ele há mais de três meses. Só resta comentar o que sobrou dele na minha cabeça, além da meia dúzia de citações que eu anotei. Então, eu me identifiquei litros com o Sal, o protagonista aventureiro também, mas nunca desapegado como o amigo Dean, que era um canalha, vagabundo, livre à la Jack London, vivendo por viver, um dia de cada vez e se metendo em confusões com as amantes Marylou, e Camille, tudo com muita droga, viajando em todos os sentidos.
Como o Sal, eu também queria ser assim, mas eu também como o Sal, sei que não vai acontecer. Mesmo que eu saia mochilar pelo mundo, mesmo que eu tatue um wherever, eu ainda vou me importar em algum lugar do meu ser. Eu sei, é uma merda. Eu também queria odiar algumas pessoas, fazer mal à elas – de propósito, porque fazer mal sem querer é ruim pacas – mas eu não sou assim. Que o acaso me proteja, porque né, eu também sou dessas pessoas que procuram um significado maior pra vida e acabam tropeçando nas próprias pernas, talvez eu morra afogada no meu vomito um dia depois de alguns litros de whisky, talvez eu tenha uma overdose de alguma coisa, talvez eu seja brutalmente assassinada. Ou talvez eu, finalmente, me convença de que toda essa bobagem underground é uma mentira, um dogma criado por uma vontade de acreditar como qualquer outra e seguido, cegamente, por um monte de gente tão confusa e hipócrita como qualquer outra. Ou talvez, eu simplesmente, me suicide, lindamente, em nome do niilismo. Naa, não vai acontecer, não agora que tem alguém que me odeia. Isso me mantém de pé muito mais do que os alguéns que me amam. Mas acho que eu perdi o fio da meada, então, vamos às citações do livro, até porque eu indico bastante, dos beats, acho Kerouac o melhor.
Ah, sim, lendo as citações, eu lembrei que Sal queria escrever um livro e pá, a literatura e a metalinguagem, como sempre. Enfim.
Meu argumento sobre Sal tá todo comprovado aqui:
Mas, nessa época, eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos, e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda a minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop – pode-se ver um brilho azul intenso até que todos “aaaaaah!”
Frases, frases, frases:
Você tem que mergulhar nessa história com a mesma energia com que um viciado se droga.
Como ao menos começar a pôr tudo isso no papel, sem desvios repressivos, sem tantos grilos, essas inibições literárias e temores gramaticais...
Lá estava ele, sozinho no limiar da porta, curtindo a efervescência da rua. Amarguras, recriminações, conselhos, moralidade, tristeza – tudo lhe pesava nas costas, enquanto à sua frente se descortinava a alegria esfarrapada e extasiante de simplesmente ser.
Uma angústia trespassou meu coração, como acontecia sempre que via uma garota pela qual estava apaixonado indo na direção oposta, neste mundo grande demais.
Então, chega o dia em que o cara se descobre um desgraçado, um infeliz, fraco, obscuro e nu, e com a aparência de um fantasma fatigado e fatídico, avançando trêmulo pelos pesadelos da vida.
Mas eles tem que se preocupar e trair seus horários, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas, o então, a desejos caprichosos, angustiosos e angustiantes...
Homens orgulhosos e trabalhadores, que haviam percorrido as insípidas calçadas da vida sem sequer sonhar com a loucura esfarrapada, com a balbúrdia devassa de nossas rotas vidas reais, de nossa noite vigente, o inferno disso tudo e a estrada do pesadelo sem sentido. Tudo isso num vazio sem começo nem fim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário